A origem das maloclusões

As maloclusões estão entre os problemas mais comuns que são tratados na cadeira do dentista. Não é difícil entender o porquê quando olhamos para os números: entre 80 a 89% das crianças apresentam algum tipo de maloclusão, com os primeiros sinais aparecendo a partir dos 5 anos de idade. Se não tratados na infância, esses jovens tornam-se adultos com os mesmos problemas.
Mas quais são as causas dos dentes desalinhados? Quais são os danos que eles trazem à sua vida ou à do seu filho? E quais são as opções de tratamento existentes atualmente? É o que veremos neste guia completo sobre o assunto.

O que são maloclusões?

Apesar de serem popularmente chamados de “dentes tortos” ou “dentes desalinhados”, esses não são termos odontológicos oficiais. Nem sequer são aplicados a um único problema.

Talvez você pense que todas as pessoas com dentes tortos que passam por um tratamento de alinhamento têm o mesmo problema, mas isso não é verdade. 

O que conhecemos popularmente por “dentes tortos” no mercado, na verdade, recebe o nome de maloclusões

Esse termo é usado para designar todos os casos em que os dentes e suas bases ósseas estão posicionados inadequadamente. Ou seja, quando os dentes estão desalinhados. Normalmente, são casos tratados pela Ortodontia ou pela Ortopedia Funcional dos Maxilares.

As maloclusões recebem esse nome porque indicam problemas que impedem a correta oclusão da boca (também chamada de vedação bucal). Idealmente, os dentes superiores devem encobrir ligeiramente os inferiores (ou seja, o arco dentário superior precisa ser um pouquinho maior do que o inferior).

Se você se sente mal por ter os dentes tortos causados por alguma maloclusão, não pense que é o único. Como vimos no começo da página, entre 80 a 89% das crianças têm algum tipo de problema no desenvolvimento da sua arcada dentária. Se nunca tratados, os dentes permanecerão desalinhados.

Classificação das maloclusões

As maloclusões são classificadas em três Classes: I, II e III. Você não precisa saber muito profundamente como essas classes funcionam (a não ser que esteja estudando Odontologia, claro!), mas vale a pena ver um resumo para entender melhor a situação:

  • Classe I: acontece quando os molares da maxila (osso central do rosto, onde está o arco dentário superior) estão alinhados com os molares da mandíbula (osso onde está o arco dentário inferior). Ou seja, é quando o arco de cima e o de baixo estão bem alinhados, ainda que os dentes estejam tortos;
  • Classe II: acontece quando os molares da mandíbula estão mais recuados do que os da maxila. Ou seja, é como se a parte debaixo da boca da pessoa estivesse “para trás”;
  • Classe III: acontece quando os molares da mandíbula estão mais avançados do que os da maxila. Ou seja, é como se a parte debaixo da boca da pessoa estivesse mais proeminente, mais para frente.

O que você precisa compreender daqui é que as maloclusões acontecem pelo posicionamento incorreto da base óssea da boca. Por causa desse mau posicionamento, os dentes não conseguem nascer da maneira correta, causando tipos de mordidas imperfeitas.

É justamente pelo tipo de mordidas que nós percebemos o que chamamos de “dentes tortos”, ou seja, o desalinhamento dos dentes.

Tipos de mordidas imperfeitas

Além das classificações por classes (que vimos agora há pouco), as maloclusões também são separadas pelo tipo de mordidas que elas geram.

Confira a seguir quais são os principais tipos de mordidas imperfeitas causadas pelas maloclusões!

Apinhamento dentário

Quando ouvimos alguém falando de “dentes tortos”, normalmente ela está falando de alguém com apinhamento dentário. Esse tipo de mordida acontece quando os dentes nascem uns por cima dos outros.

Normalmente, o apinhamento dentário acontece porque os arcos dentários não se desenvolveram do jeito certo e não há espaço para os dentes nascerem corretamente.

Mordida aberta

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A mordida aberta é um dos tipos mais comuns de maloclusões. Ela acontece quando a pessoa com dentes tortos não consegue encostar os dentes superiores e inferiores. Isso forma um espaço entre os arcos dentários de cima e de baixo.

Existem vários fatores que podem causar a mordida aberta (assim como os outros tipos listados aqui) e nós veremos quais são eles com mais detalhes a seguir, ok?

Mordida cruzada

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A mordida cruzada é um tipo de maloclusão que pode ocorrer nas Classes I, II e III (nas duas primeiras, como mordida cruzada posterior e, na última, como mordida cruzada). Ela acontece quando a pessoa fecha a boca e os dentes debaixo (do maxilar) ficam por cima dos dentes de cima (da maxila).

Esse tipo de mordida pode ter duas variações: a mordida cruzada anterior e a mordida cruzada posterior (ou lateral). Explicando de maneira simplificada, a mordida cruzada anterior acontece quando os dentes da parte da frente da mandíbula ficam por cima dos dentes superiores. 

Já a mordida cruzada posterior acontece quando os dentes da parte de trás da mandíbula (os dentes laterais da boca) ficam por cima dos superiores.

Sobremordida

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A sobremordida (também chamada de mordida profunda) é uma maloclusão das Classes I e II. Ela acontece quando os dentes da parte de cima da boca recobrem muito os da parte debaixo.

Ou seja, a mordida da pessoa nessa condição evidencia os dentes de cima, que ficam por cima dos de debaixo.

Qual a causa das maloclusões?

Agora que já vimos que os dentes tortos são maloclusões caracterizadas por imperfeições na nossa mordida, precisamos entender qual a origem desse problema.

Afinal, será que as pessoas com maloclusões simplesmente nasceram assim ou existem elementos em suas rotinas que causaram esse fenômeno? É o que veremos a seguir com mais atenção!

Maloclusões x Genética

Uma das explicações mais comuns dadas atualmente é de que os dentes tortos, o apinhamento dentário e outras maloclusões são fatores genéticos. Basicamente, as pessoas nascem com tamanhos desproporcionais entre seus maxilares e os seus dentes.

Mas será que isso é verdade? Alguns estudos recentes demonstram que, apesar de o DNA ter sim alguma influência nas pessoas com maloclusões, ele não explica a prevalência delas que vemos hoje.

Por exemplo, você sabia que o ser humano é o único dentre as mais de 5.000 espécies de mamíferos com taxa de maloclusões acima de 5%? 

Não só somos os únicos acima dessa taxa, como a ultrapassamos de longe: como vimos no início do texto, de 80 a 89% das crianças apresentam algum tipo de maloclusão.

Contudo, o que pesquisadores têm constatado é que as coisas não foram sempre assim. Pelo contrário: o número de pessoas com maloclusões explodiu desde a Revolução Industrial, do final do Século 18 até meados do Século 19.

Um dos estudos mais concretos sobre o tema foi realizado em 1939, pelo Dr. Weston Price. Ele estudou 14 culturas diferentes para concluir que esse alto nível de maloclusões na sociedade é fruto das sociedades industrializadas. Afinal, sociedades pré-industrializadas não tinham os mesmos níveis de maloclusões que os atuais.

É a mesma conclusão que o pesquisador Peter S. Ungar chegou no seu livro Evolution’s Bite: A Story of Teeth, Diet and Human Origins, publicado em 2017.

Ambos concluem que hábitos do nosso dia a dia — incluindo que comemos alimentos mais macios e processados — não permitem que nossa musculatura orofacial se desenvolva corretamente. Essa seria a origem das maloclusões.

Como a Odontologia Miofuncional explica as maloclusões?

Como vimos, a perspectiva científica mais moderna afirma que os principais fatores para a enorme quantidade de maloclusões e pessoas com dentes tortos que vemos são os hábitos e a alimentação que temos hoje em dia.

Nessa mesma linha, a Odontologia Miofuncional pode ajudar a entender melhor como as maloclusões aparecem e, assim, apresentar opções de tratamento que sejam mais eficazes.

A Odontologia Miofuncional é uma filosofia de tratamento focada na reeducação e no estímulo da musculatura orofacial (lábios, bochechas, face e língua). Seu objetivo é corrigir maus hábitos miofuncionais e estimular o crescimento e o desenvolvimento de todo o complexo crânio-cérvico-mandibular (ossos da maxila, mandíbula e parte do crânio).

Opa, acabamos de ver muitos termos desconhecidos e difíceis de entender. Afinal, o que tudo isso significa? Calma! Não precisa se preocupar: vai ficar mais fácil compreender do que estamos falando quando explicarmos tudo direitinho.

Lembra que dissemos que os estudos e pesquisas mais recentes afirmam que essa explosão de pessoas com maloclusões só aconteceu depois da Revolução Industrial? Segundo eles, a explicação para isso é que, desde então, a dieta da sociedade passou a ser composta por alimentos mais macios e processados.

Ou seja, nós precisamos fazer menos esforços para comer, especialmente na infância. Logo, a musculatura da nossa face (que controla o posicionamento dos arcos dentários e, por consequência, dos dentes, como vimos lá no começo do texto) não se desenvolve do jeito certo.

Explicando de maneira simplificada, é como se os nossos hábitos alimentares não permitissem que nós “malhássemos” os músculos orofaciais. Assim, eles não conseguem estimular o crescimento dos ossos que colocam os dentes no lugar. Resultado: temos maloclusões.

A força dos músculos orofaciais

Talvez você esteja achando essa explicação um pouco estranha. Afinal, os músculos da nossa face têm tanto poder assim? O fato de eles não serem estimulados adequadamente quando ainda somos crianças é o suficiente para explicar dentes tortos e desalinhados nas pessoas?

Sim, é! Quer entender como? Vamos lá.

Sabe quanta força é necessária para mover um dente de posição em nossa gengiva? 1,7 gramas/cm² de força.

Isso mesmo: 1,7 gramas/cm² de força já é o suficiente para mover um dente. 

Os elásticos intraorais usados nos tradicionais aparelhos para maloclusões (aqueles com bráquetes) costumam fazer de 70 a 180 gramas/cm² de força (e são destinados a segurar todo o arco dentário).

Agora, sabe quanta força só o lábio inferior é capaz de fazer? De 100 a 300 gramas/cm². A língua é capaz de exercer até 500 gramas/cm² de força!

Portanto, sim, a musculatura orofacial é poderosa o suficiente para guiar o correto desenvolvimento da nossa estrutura mandibular.

É por isso que a Odontologia Miofuncional para crianças é vital na Odontopediatria. Afinal, ela ajuda a corrigir os maus hábitos que impedem esse desenvolvimento e causam os dentes tortos.

Maus hábitos miofuncionais

Além da nossa alimentação, existe outro elemento que não estimula a musculatura orofacial e atrapalha o desenvolvimento dos ossos da face: o conjunto de maus hábitos miofuncionais que adquirimos desde o nascimento.

Um hábito miofuncional é uma ação que envolve a funcionalidade dos nossos músculos. Afinal, “Mio” vem de “mys”, que significa “músculos”, no latim. 

Mais especificamente, estamos falando dos hábitos que envolvem a funcionalidade da nossa musculatura orofacial (lábios, língua, bochechas e músculos da face).

Alguns desses hábitos são positivos. Já outros, são negativos. Normalmente, esses maus hábitos trazem consequências ruins para a musculatura orofacial e isso termina com as maloclusões, como o apinhamento dentário.

É uma sequência

  • Temos maus hábitos -> a musculatura orofacial não é estimulada -> os ossos mandibulares e os arcos dentários não se desenvolvem no tamanho certo -> temos maloclusões.

E quais são os maus hábitos miofuncionais que podem causar dentes tortos e desalinhados? Vejamos a seguir!

Respiração bucal

Você sabia que há uma ligação sensível entre pessoas com maloclusões e quem respira pela boca? Isso mesmo: a respiração bucal é um dos maus hábitos que fazem com que as pessoas tenham maloclusões como o apinhamento dentário.

Inclusive, Edward Angle (conhecido como o “pai da Ortodontia Moderna”), uma vez afirmou que respirar pela boca é “a causa mais potente, constante e variada para maloclusões”. 

A respiração bucal acontece quando em vez de fazer a sua respiração majoritariamente pelo nariz (como é o correto), a pessoa respira pela boca. Isso traz uma série de problemas, incluindo o comprometimento do seu desenvolvimento facial.

Mas como exatamente a respiração pela boca pode causar maloclusões? Como vimos acima, está tudo conectado e ligado ao desenvolvimento facial da pessoa. O que acontece é o seguinte:

A respiração pela boca faz com que os músculos do nariz, além da maxila e da mandíbula, se desenvolvam de maneira assimétrica. Além disso, ela causa uma desorganização das funções exercidas pela língua, pelos lábios e pelas bochechas. Por conta disso, o complexo cérvico-crânio-mandibular de quem tem a respiração bucal não alcança todo o seu potencial, gerando as maloclusões.

Isso mesmo: respirar pela boca causa mudanças no seu rosto. O estudo realizado por Angle, por exemplo, ressaltou algumas alterações específicas, como:

  • Nariz menor e mais curto;
  • Boca continuamente aberta;
  • Lábio superior menor;
  • Mandíbula para trás e com comprimento menor.

Além disso, a respiração pela boca também faz com que o posicionamento da língua seja incorreto e isso prejudica o desenvolvimento dos arcos dentários. Em uma situação normal (em que a respiração é feita pelo nariz), a língua fica posicionada no palato (que é o “céu da boca”, composto pelo palato duro, seu osso, e o palato mole, o tecido).

Quando a primeira dentição da criança começa a nascer (os famosos “dentes de leite”), a língua na posição correta exerce uma pressão que vai expandir a maxila (a parte de cima da boca, lembra?) para que ela alcance seu desenvolvimento correto.

Todavia, se a criança respirar pela boca, isso pode não acontecer e o desenvolvimento dos arcos dentários fica comprometido. Ou seja, em vez de eles ficarem no formato de um “U” bem amplo, para acomodar todos os dentes, eles ficam mais apertados. Assim, quando os dentes nascem, temos o apinhamento dentário (que são os dentes tortos). 

Para completar, outras maloclusões, como a mordida cruzada posterior e a mordida aberta, também são consequências da respiração bucal, causando dentes desalinhados.

Posição incorreta da língua

A posição da língua na boca é um fator importantíssimo no correto desenvolvimento das estruturas ósseas da face. O seu posicionamento correto dentro da boca é quando está suavemente apoiada no palato (o céu da boca, como já vimos). A ponta da língua deve ficar em contato com a papila incisiva, que fica logo atrás dos dentes, com o restante do músculo curvado e apoiado no palato.

Contudo, muitas pessoas têm o mau hábito de manter a língua mal-posicionada. Normalmente, isso acontece devido à respiração bucal, já que a língua naturalmente “cai” para a posição errada quando estamos com a boca aberta. As consequências disso são várias, incluindo o apinhamento dentário, mas também várias maloclusões, como a mordida cruzada e aberta.

O que acontece é que a língua na posição errada perde tônus, afetando o crescimento da mandíbula e o desenvolvimento de outras partes da musculatura orofacial, como as bochechas e os lábios (o superior, por ficar mais curto e sem contato com o inferior).

Deglutição atípica

Anteriormente, afirmamos que a força necessária para mover um dente era de 1,7 g/cm² e que a língua conseguia produzir 500 g/cm² de força. Ou seja, sua movimentação dentro da boca é muito poderosa.

O nosso desenvolvimento facial é um processo muito plástico, ou seja, ele é facilmente moldável e influenciável por forças específicas. A língua, como observamos, é o músculo que mais tem força e é capaz de exercê-la em toda a musculatura orofacial.

Portanto, quando fazemos a deglutição (engolimos algo), estamos movendo a língua e afetando todo o processo de desenvolvimento facial natural. Se a nossa deglutição for típica, não há problemas: tudo acontece como deveria ser.

Contudo, se tivermos a deglutição atípica, então podemos ter problemas no desenvolvimento das estruturas ósseas do rosto e, assim, dentes tortos, desalinhados ou outros tipos de maloclusões.

Para que uma deglutição seja considerada típica, é importante haver um equilíbrio entre os músculos mastigadores, a língua e os músculos periorais. Porém, qualquer fator de desequilíbrio nessa relação causa uma deglutição atípica.

Como existem diferentes tipos de deglutição atípica, ela pode ter diversos efeitos. Todavia, esse mau hábito sempre influenciará o desenvolvimento das bases ósseas do rosto, afetando o nascimento e a posição dos dentes.

Por exemplo, estudos já mostraram que quando a deglutição atípica joga a língua contra os dentes inferiores, a pessoa não tem um desenvolvimento ósseo adequado e pode ter um severo apinhamento dentário (ou seja, ter os dentes nascendo um por cima do outro, sem espaço nos arcos dentários).

Uso de bicos artificiais na infância

A OMS recomenda a amamentação das crianças até os 2 anos de idade para garantir o desenvolvimento apropriado do bebê. Contudo, por várias questões, nem toda mãe consegue seguir essa recomendação e é nesse momento que a mamadeira entra em cena.

Por mais que ela promova uma sucção nutritiva, o fato é que o bico artificial da mamadeira traz consequências negativas para o desenvolvimento facial da criança. Isso acontece por dois motivos principais:

  • O formato do bico da mamadeira;
  • O movimento feito pelo bebê ao se alimentar.

Em relação ao primeiro ponto, é possível ter maloclusões por causa do bico da mamadeira porque o seu diâmetro é sempre constante, sem acompanhar o crescimento ou as necessidades da boca da criança. Na verdade, é a boca do bebê que se adapta ao formato do bico, tendo o seu desenvolvimento moldado dessa forma.

Além disso, o movimento que o bebê faz ao se alimentar pela mamadeira difere daquele feito no peito materno. Na mamadeira, a sucção acontece por pressão negativa (a criança faz força) ao elevar e baixar sua mandíbula, apertando o bico de borracha. 

Esse padrão específico de sucção e deglutição faz um esforço específico na musculatura orofacial que tem consequências negativas, como diminuição da base nasal. Por sua vez, essa redução pode gerar maloclusões ou problemas respiratórios no futuro.

A sucção na mamadeira ainda desequilibra o esforço na musculatura orofacial do bebê: de um lado, os músculos mastigatórios não são ativados, enquanto o mentoniano e bucinadores ficam hiperativos. A consequência é haver um estímulo para o crescimento vertical da face do bebê, com maior limitação horizontal.

Maior limitação horizontal significa que nem a maxila e nem a mandíbula se “alargarão” como devem e os arcos dentários ficarão reduzidos. Com pouco espaço para os dentes nascerem, a criança provavelmente terá o já mencionado apinhamento dentário. Ou seja, ela pode ter dentes tortos devido ao bico da mamadeira. Para completar, o bico artificial também faz com que a criança aprenda a engolir sem sincronizar o movimento com a respiração. Esse hábito aumenta a tendência a desenvolver a respiração bucal, que você já conhece.

Sucção não-nutritiva

Se já é possível ter dentes tortos por causa do bico da mamadeira, que gera uma sucção nutritiva, imagine só pelo uso de chupetas e outras categorias de sucção não-nutritiva comuns na infância (como chupar o dedo por exemplo).

Apesar de estar listada como fator de risco para o desenvolvimento de praticamente todas as maloclusões, a chupeta ainda é muito popular e usada no Brasil. Porém, ela pode causar mudanças na musculatura orofacial (tornando-a menos tonificada) e até deformações na boca e na face.

Em primeiro lugar, a chupeta muda a característica da mastigação do bebê. Se a criança não consegue fazer o movimento mastigatório correto (usando os dois lados da boca), há menor estímulo para o crescimento das estruturas laterais do rosto. 

As consequências disso podem ser o desenvolvimento de uma deglutição atípica, músculos mastigatórios reduzidos, mordida aberta ou mordida lateral.

Como consertar maloclusões?

Até agora, nos debruçamos sobre o que faz com que tenhamos uma taxa de maloclusões tão maior do que outros animais. Ou seja, analisamos quais são os fatores sociais e os maus hábitos que atrapalham o nosso desenvolvimento facial e causam os dentes tortos e problemas semelhantes.

Porém, é hora de falarmos sobre as opções de tratamento disponíveis atualmente. Como consertar maloclusões? Existe uma maneira de fazer isso ou, uma vez desenvolvido o apinhamento dentário ou outras maloclusões, não possuem tratamento?

Existem no mercado várias opções de tratamento para corrigir dentes tortos. Para simplificar, nós vamos dividir as alternativas em dois grupos:

  • Aqueles que usam aparelhos tradicionais com bráquetes ou alinhadores;
  • Aqueles que seguem os princípios da Odontologia Miofuncional.

Assim, você pode entender melhor as duas opções, analisar suas características e tomar uma decisão mais embasada quando procurar por um dentista.

Aparelhos tradicionais com bráquetes ou alinhadores

Se você já procurou um dentista devido a um apinhamento dentário ou outro tipo de maloclusão, provavelmente recebeu a recomendação de usar um aparelho para dentes tortos. Antigamente, era mais comum o uso de aparelhos com bráquetes (que ainda são muito usados, mas um pouco menos populares). Hoje em dia, os alinhadores são mais usados.

Em teoria, os dois dispositivos têm mais ou menos a mesma ideia de como consertar dentes tortos: fazer uma pressão específica para que eles se alinhem na posição correta.

Lembra que mencionamos que basta 1,7g/cm² de força para mover um dente? Pois bem, tanto os aparelhos para dentes tortos com bráquetes, quanto os alinhadores, produzem uma quantidade específica de força de modo a “empurrar” os dentes para a posição correta.

No caso dos aparelhos com bráquetes, o sistema é composto pelos bráquetes (colados nos dentes) e por elásticos que geram força de até 180g/cm², além de um fio ortodôntico de metal que controla o movimento feito pelo dispositivo.

Já os alinhadores são produzidos para gerar uma força conjunta em cada arco dentário e nos dentes de maneira personalizada. Para funcionarem, é necessário fazer um mapeamento considerando a posição atual dos dentes e para onde se quer levá-los. Então são feitos vários alinhadores personalizados que vão, pouco a pouco, forçando os dentes tortos à posição correta.

Assim, o paciente usa um aparelho por um período determinado de tempo, depois troca por outro que é mais próximo da “posição ideal” e assim vai até finalizar todo o mapeamento feito e ter os dentes alinhados.

Qual a eficácia dos aparelhos com bráquetes e alinhadores?

Usar um aparelho tradicional para dentes tortos, com bráquetes, é eficaz para o paciente. Isso significa que um aparelho do tipo pode, efetivamente, alinhar os dentes e resolver o problema. Porém, o tratamento tem muitos pontos negativos que devem ser mencionados (e você precisa tê-los em mente quando tomar sua decisão). São eles:

A recidiva acontece quando o paciente volta a ter os problemas que ele tinha antes do tratamento. Ou seja, a pessoa tem os dentes tortos, usa o aparelho tradicional com bráquetes por 3 anos e fica com eles alinhados. Todavia, depois de alguns meses ou anos as maloclusões aparecem novamente. 

Quando não há o uso de contenção (que pode ser por um aparelho de contenção, por exemplo), o índice de recidiva é de 90%. Isso mesmo: 9 em cada 10 pessoas que usam o aparelho com bráquetes podem ter problemas de novo se não usarem a contenção.

A razão para isso é bem simples: se são os maus hábitos miofuncionais (como respiração bucal, deglutição atípica ou posicionamento incorreto da língua) que causam as maloclusões, eles continuam existindo mesmo após a retirada do aparelho com bráquetes. 

Assim, eles voltam a causar problemas. Afinal, o aparelho só tratou o sintoma (os dentes desalinhados), mas não tratou a origem da questão (os maus hábitos).

O segundo ponto negativo é a descalcificação do esmalte, que pode ser permanente. Para poder colar os bráquetes no dente, é necessário lixá-lo, pois o esmalte é liso demais para permitir a aderência adequada do bráquete. Nesse processo, perde-se o esmalte que protege o dente. O resultado é maior sensibilidade à dor, temperaturas polarizadas e lesões, além é claro da questão estética. 

O terceiro ponto negativo causado pelo uso de um aparelho para dentes tortos é a reabsorção radicular. O que é isso? Explicando de maneira simples, é o processo em que o nosso organismo reabsorve parte da raiz do dente para que a força mecânica do aparelho possa movê-lo. 

Isso acontece porque o aparelho para dentes tortos tradicional e o alinhador fazem força constante nos dentes. Como a raiz do dente existe justamente para que ele não se mova, esse conflito causa um dano de até 4mm na raiz, que é reabsorvida pelo corpo. 

Isso acontece em 100% dos casos, usando um aparelho com bráquetes ou um alinhador. A diferença de caso para caso é quanto da raiz do dente será perdido no processo.

A consequência desse dano radicular é que o dente fica mais fragilizado na sua posição na boca. Existem casos de pessoas que tiveram de remover os dentes e implantar novos por causa da extensão do dano no uso dos aparelhos tradicionais.

Um ponto muito importante a ter em mente é que, nos tratamentos para maloclusões mais comuns, a causa do problema não é abordada. Por exemplo, no apinhamento dentário, o foco não é em desenvolver os arcos dentários para ter espaço para os dentes.

Por isso, em muitos casos, é necessário extrair dentes dos pacientes para que haja espaço para o alinhamento após o uso de aparelhos ou alinhadores. Assim, a pessoa perde dentes perfeitamente funcionais por causa da abordagem desses tratamentos.

Por fim, a dor do uso dos aparelhos para dentes desalinhados tradicionais é um ponto negativo considerável. Quem já usou um equipamento do tipo sabe como são dolorosos os primeiros dias de adaptação, especialmente após cada consulta de acompanhamento, em que o dentista aperta um pouco mais o fio.

Como a Odontologia Miofuncional trata as maloclusões

O tratamento miofuncional para maloclusões segue uma lógica diferente das versões mais tradicionais, que usam aparelhos com bráquetes ou alinhadores.

O principal ponto de diferença entre as duas opções é que o tratamento da Odontologia Miofuncional mira diretamente na causa do problema, em vez de focar somente nos dentes tortos, que são um sintoma.

Como você leu neste artigo, os dentes tortos e as maloclusões são frutos de maus hábitos miofuncionais e de um desenvolvimento irregular ou insuficiente da musculatura orofacial.

Por exemplo, quando os arcos dentários da maxila (parte de cima da boca) ou da mandíbula (parte debaixo) não se desenvolvem completamente, não há espaço suficiente para o nascimento de todos os dentes. Logo, eles aparecem apinhados, um por cima do outro, tortos.

Se o tratamento mirar em corrigir os elementos que impedem esse desenvolvimento e também estimular a musculatura necessária para que os arcos alcancem seu potencial, então será possível alcançar um alinhamento natural dos dentes.

No entanto, o foco do tratamento é justamente a correção dos maus hábitos (que trazem muitas outras consequências negativas do que apenas as maloclusões) e estimular o desenvolvimento da musculatura orofacial.

Assim, exclusivamente para o objeto de tratar os dentes tortos, o tratamento miofuncional traz melhores resultados quando aplicado em crianças e adolescentes em comparação com pacientes adultos. Afinal, a estrutura óssea ainda está em desenvolvimento e tem uma elasticidade maior.

Entretanto, isso não significa de nenhuma forma que o tratamento é insuficiente em adultos. Pelo contrário: ela ajuda a tratar as maloclusões com menos efeitos negativos do que as opções mais comuns no mercado.

Como o Sistema Myobrace® funciona na prática?

O foco da Odontologia Miofuncional está na reeducação do paciente para corrigir os maus hábitos e no desenvolvimento da sua musculatura orofacial. A sua principal representante no mercado é a Myobrace®, uma empresa australiana com presença em mais de 100 países no mundo, incluindo o Brasil.

A Myobrace® faz parte do grupo Myofunctional Research Co., que estuda e desenvolve tratamentos, programas de educação e aparelhos focados na Odontologia Miofuncional há mais de 30 anos. 

Atualmente, seu sistema é usado em mais de 100 países diferentes, incluindo o Brasil (onde está presente há mais de 20 anos).

O Sistema Myobrace® é formado por um conjunto específico de exercícios para a correção de maus hábitos e aprendizado de novos, além do uso de aparelhos específicos para o desenvolvimento da musculatura, alinhamento natural e também correção de hábitos.

Os exercícios fazem parte de programas específicos criados pela equipe da Myofunctional Research Co. com base em estudos científicos liderados pelos principais especialistas no assunto na Austrália. 

Eles ensinam ao paciente os movimentos certos ao respirar ou deglutir, por exemplo, além da posição correta da língua na boca. Assim, não só a pessoa aprende conscientemente quais são os hábitos corretos, mas a repetição do exercício cria também a memória muscular para realizá-los automaticamente.

Já os aparelhos são feitos para uso diário (1 hora por dia + durante a noite, ao dormir) e também corrigem os maus hábitos miofuncionais, além de promoverem o desenvolvimento da musculatura e alinhamento natural dos dentes tortos.

Eles contam com algumas vantagens em relação aos aparelhos convencionais de bráquetes e alinhadores. Por exemplo:

  • Não precisam ser usados o dia inteiro, apenas por 1 hora durante o dia + à noite, enquanto a pessoa dorme;
  • São feitos de silicone médico, que é muito mais confortável para usar;
  • Não exigem moldagem, trazendo mais conforto ao paciente;
  • Contam com dispositivos que permitem a correção dos maus hábitos de forma mais rápida e eficaz;
  • Não causam danos de reabsorção radicular ou descalcificação do esmalte dos dentes;
  • Atuam na verdadeira causa das maloclusões, trazendo resultados duradouros (já que os maus hábitos foram corrigidos).

No geral, o tratamento com o Sistema Myobrace® é composto por 3 etapas, cada uma com diferentes exercícios e um aparelho específico. Cada sistema é direcionado a uma dentição, desde a de leite para crianças bem novas até a dentição permanente para adultos.

No entanto, o sistema conta com flexibilidade o suficiente para se adequar a cada caso. Existem pessoas que alcançam os resultados desejados em menos tempo, por exemplo.

Quanto custa para alinhar os dentes?

Uma das principais preocupações de quem quer corrigir maloclusões é o custo do tratamento. Afinal de contas, existem muitos fatores a considerar em um tratamento desses, como:

  • Custo do aparelho;
  • Consultas;
  • Duração do tratamento;
  • Imprevistos (aparelho pode quebrar, por exemplo).

Com tudo isso em mente, é muito difícil dizer quanto um tratamento para maloclusões pode custar. Isso porque existem muitos fatores a considerar, desde o tipo de tratamento escolhido até o contexto de cada caso. Afinal, situações mais complexas podem exigir tratamentos mais demorados.

Tendo tudo isso em mente, normalmente o tratamento para dentes tortos com alinhadores tende a ser mais caro. Afinal, os alinhadores são feitos de maneira personalizada, o que encarece seu custo de produção.

Os tratamentos com aparelhos tradicionais com bráquetes também têm um preço considerável devido ao valor dos aparelhos e, principalmente, pela sua duração: são tratamentos mais longos, com duração média de 3 anos. Além disso, na maior parte dos casos, exigem o uso da contenção (que é mais um aparelho e consultas constantes com o dentista).

Portanto, o tratamento miofuncional tende a ter o melhor preço e o melhor benefício, justamente por atuar na origem do problema.

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